quinta-feira, julho 19, 2012

Medida Padrão Portuguesa

Desculpem a linguagem as senhoras leitoras, mas não há outra maneira de por nestas linhas este meu Post.
Ando à dias a matutar, talvez devido ás companhias com que profissionalmente tenho sido obrigado a acompanhar. Tudo boa gente, tudo de bon coração tudo de fala facil e trato leve.
Reunimo-nos em assembleias gerais à volta da mesa da refeição do dia, somos uns quantos tantos mais de 5 menos de vinte, e eu lá no meio, um bocado acabrunhado já que estou fora do meio. Oiço muito e falo pouco.
Ontem, a dissertação correu á volta da fantástica Medida Padrão Portuguesa que é o...Caralho!.
O Caralho serve para medir tudo, para expressar tudo, o bom o mau, o muito bom e até o optimo ou o péssimo. Não há, creio eu noutra lingua, medida mais flexivel e eloquente que o nosso Caralho!
Sempre acompanhado claro está com o ponto de exclamação.

Caralho sem ponto de exclamação é somente calão para o orgão sexual masculino, mas também universal para todo o reino animal.
 O Caracol tem caralho,  os pássaros têm caralho, até os peixinhos do mar têm caralho.
Embora haja certas afirmações que se use o Caralho sem o ponto, como claro está...a excepção confirma o Caralho da regra.
Mas não é de sexologia que para aqui vim escrever.

Venho dissertar sobre a expressão Caralho!! Caralho!! ( agora estou a chamar à atenção).
Quando dizemos " Aquela é feia comó Caralho!!" estamos a falar de beleza...ou da falta dela.
Mas se dissermos  "Caralho! olha-me aquela gaja!!" já estamos a falar de beleza em toda a sua sumptuosidade!!
"tu não estudas um Caralho!!" lá está...pegamos na medida e comparamos que o sujeito é mandrião...ou é o Relvas... ou o Sócrates...
"És engenheiro? És mas é o caralho!!!". Outro exemplo da medida padrão, o Caralho! não é formado... ou talvez seja quando dizemos "Aquele é um economista do Caralho!!"....

Mas até em gastronomia a Medida Padrão Portuguesa ( MPP) é usada e referenciada...
"Este frango é bom pa Caralho!!"...cá está o elogio, e se juntarmos um piri-piri do Caralho! então o Caralho do frango ainda é melhor!! ( e aqui mais uma vez não estamos na vertente sexual da coisa).

Pessoalmente gosto de usar a MPP na enologia, depois de escutar aqueles enofilos eruditos comó Caralho!! a dissertar sobre taninos, corpo, aromas castas que o Caralho do Vinho tem, remato sempre que posso, que é um Vinho do Caralho!! ou então Caralho de vinho.

A MPP também serve para meteriologia, como acontece nestes dias quentes...pa Caralho!!
ou no Inverno quando está um frio do Caralho!!

Em economia, nas finanças, tudo está relacionado com a MPP. "Vou pagar mais impostos o Caralho!" a nossa balança comercial está positiva pa Caralho!!

Enfim , a nossa MPP é talvez, quase de certeza a base da nossa Identidade de povo com mais de 1.000 Anos de história...Somos velhos pa Caralho!!

Na educação militar principalmente, nunca falha a MPP, em recruta somos todos uns Caralhos!! Não valemos nem um Caralho!! MAs ao longo da vida podemo-nos tornar ricos comó Caralho!! ou até espertos comó Caralho!!.

Vendo bem, uma Nação como a nossa, com um Povo do Caralho!! não tem nada a temer. Somos Grandes comó Caralho, e seremos sempre um Caralho de País!!

depois disto, mando aqueles que não gosto para o Caralho!!
 

quinta-feira, junho 14, 2012

GIJA

Minha Querida,

há muitos anos que não lhe escrevo uma carta, pensando bem acho que nunca lhe escrevi. Não precisava, achava eu, porque a tinha comigo sempre ao meu lado.

hoje tenho-a sempre comigo também, bem dentro de mim. eu sei que está porque ainda falamos muito um com o outro.

Gostava de lhe poder mostras todas as coisas que me têm acontecido desde que se foi embora. Se calhar, muitas delas não ia gostar mas acredito que a maioria a fazia contente.

Ultimamente, tenho andado a pensar muito em si, minha querida, talvez seja por estarmos a chegar aquela altura do ano que mostrava ser a mais importante.

Todas as tardes conseguia-me contar uma pequena historia do Menino, que cresceu e se tornou grande. Hoje infelizmente ficava triste de saber que raramente vou à missa ao Domingo, continuo a falar com o Menino todas as noites antes de adormecer, e talvez não chegue. Tenho a certeza que não chega.

Mas , não me esqueço dele nunca, nem de si. Daquelas aulas de catequese que me dava no sofá da sala, e a seguir as lições de inglês antes de poder ir brincar e depois de já ter feito os trabalhos de casa.

 Lembro-me daqueles chás ás cinco em ponto no terraço de Perfurada, que eu lhe fazia companhia, só porque gostava. Lembro-me daquela luz de fim de verão, a calma do campo a chegar o outouno, e as histórias que me contava.

Lembro-me tão bem da lata de bolachas que tinha na comoda da sala, naquela gaveta de cima, que eu chegava em bicos dos pés. Pedia-lhe uma tirava mais do que uma. Desculpe, mas acho que sabia e não se importava.

Gostava de lhe mostrar agora quem caminha ao meu lado, eu sei que a conhece, também sei que gosta dela, mas gostava que a tivesse visto.

Lembra-se aquela tarde no Peru? quando a vi a nadar? foi a única vez que a vi nadar ou tomar banho na piscina, ou no mar. Mas lembro-me tão bem.

Sabe? até hoje nada do que sonhei para mim tem acontecido, mas de uma maneira ou de outra tudo tem seguindo um bom, optimo caminho, não me queixo, só tenho pena e tento melhorar. Mas ainda nada que esperava aconteceu.

Não faz mal, tenho estado bem, com alguns desvios e uns quantos deslizes, mas acho que é natural. Ultimamente tenho tido muitas saudades suas, não sei porquê, acho que lhe digo isto todos os dias.

Sei que está com quem gosta, e aposto que tem encontrado também algumas pessoas que gosta menos, mas acredito que esteja bem. e a fazer aquilo que sempre fez melhor, olhar por nós. Eu sei que sim.

Gosto muito de si minha Querida.
Muito obrigado por tudo, porque a verdade é que cada dia que passa dou mais valor a tudo o que me passou. Só espero poder passar a alguém também.

Um beijo muito querido minha querida.

V.O.R ta...!!

tive a sorte, de estar duas semanas à volta do maior evento de vela do mundo, uma paragemzita em Lisboa de seis Barcos com tripulações valentes que há meses anda a dar a volta ao mundo. A Volvo Ocean Race parou em Lisboa, e eu estive lá. Por dentro e por fora. E saí de lá ao fim de 14 dias com um sentimento de dever cumprido, e com o Ego cheio de orgulho de ser Português.
Neste País, de gente pequena de espirito onde quem manda é a bola, onde quem comanda nunca soube comandar, houve , ou melhor...houveram durante uns dias reunidos no mesmo espaço um grupo de carolas que conseguiu montar, organizar e partilhar com quem lá passou a melhor paragem de toda a V.O.R. no mundo inteiro.
Fomos os melhores, fomos muita bons!! Tanto tanto que os grandes do evento querem voltar a Lisboa, querem mais, muito mais, imenso mais, porque Nós Portugueses fomos os Melhores, Nós somos Bons!!! e mai nada!!!....

Pena é que estas gentes das noticias, mais conhecidos por fideputaruins só pensem em Bola, em relvados e nas botas de um tal Cristiano, triste sina a nossa, mas acho que Portugal é assim mesmo....

segunda-feira, abril 30, 2012

42 Anos, entre Extravagantes algarvios de primeiro calibre

"Obriga-me" a modéstia não partilhar nomes dos envolvidos, "obriga-me" a educação não expor em claro protagonistas, obriga-me a moral e a consciência a postar aqui um post, para que de futuro possamos todos rir e nos relembrar
. Na verdade nada me obriga. Simplesmente me apetece. Porque o que ficou cá dentro é que conta.

Foi no próprio dia que fui presenteado com um daqueles presentes que irão ficar na memória de muitos anos. Tanto pelo gesto , como pela companhia como pelo motivo.
A modos de ultimato, que sem reservas e com todo o prazer acedi lá tive que arrancar para terras do sul, a mais a minha querida Mulher. Partimos logo pela manhã, a caminho do Reino dos Algarves, carro carregadinho e atestado da liquida mais que necessária para o evento,. Na mala, tioletes improváveis pois nesta altura está difícil adivinhar os temperamentos do S. Pedro.
De cá partimos rumo a sul ,já disse. O que não disse mas vou dizer é que no Sul fomos parar mesmo no meio dos aposentos do Rei daquele Reino, chegamos ao seu Palácio, ali,  sobre as dunas entre a ria e o mar, com uma vista de tirar o fôlego, e com uma ponte, que não é levadiça faz inveja a muitos castelos e chalets por este mundo a fora.
O Palácio sobre estacas,  mais se assemelha um um xiringuito todo coberto de colmo, com um varandi á volta onde os Reis deste Reino nos recebem de braços abertos, sorriso a acompanhar. Sua Majestade sempre de colete e calção. E nós estafados da dura travessia feita a transporta a liquida necessária para a ocasião.
Já lá estavam alguns convivas que prontamente nos ajudaram a secar a liquida. e logo depois começou o repasto...nada de especial.... tudo expectacular!!!
Aquele conjunto de entradas a modos de abridor de apetites deu que falar, ovas de choco, salada de ovas, salada de polvo, uma salada de salada mas que sabia a mar a sal à companhia, ao local.
Sem grande alarido uma garrafa de xampã chegou, aberta a sabre, por quem "sabre". o vinho correu, fresco leve frutado aromatizado. O xampã encantou!!
Depois, da mesma forma que o xampã apareceu e desapareceu o mesmo aconteceu ao magnifico prato de "cabrões" de quarteira que ali se apresentaram de risco ao meio bem regadinhos com molho de manteiga limão e salsa, a segurar o penteado....o Xampã encantou...
Já todos nos sentiamos aconchegados,satisfeitos, e felizes. Pensamos em partir para os digestivos a modes de animar a festa, mesmo estando já animada. Não era agora...
Agora tínhamos em todo o seu esplendor um belo exemplar de massada de Peixe, que foi daquelas maçadas nada chatas de dar cabo delas...Não conseguimos chegar ao fundo do prato tal era a quantidade, mas a verdade é que também não deixamos a suficiente para, como está na moda agora, levar no "tamparuaware" tal era o sabor, a frescura e a qualidade. Tudo Bom, mesmo Tudo muito Bom!!
Para rematar, e como somos todos gulosos apareceu o quindy...desapareceu logo....´duas trincas e zásss tássss...será preciso dizer que estava delicioso? ou dá para perceber?
Venha o uisque, venham os cafés. venha o convívio, venham as histórias de agora de antes e de sempre. vieram as fotos, a preto e branco doutros tempos que já lá vão, mas que ficaram no coração. Veio a nostalgia....mas ficou o nosso coração cheio a nossa mente feliz. Veio a felicidade a calmaria , ali o tempo parou. ficamos em suspenso longe do mundo de hoje longe de tudo longe de todos. Perto daqueles que gostamos e que nos são e foram importantes.
Chegou a hora da tarde em que o frio chegou. Saímos do Reino dos Reino dos Algarves, e parámos de novo em casa, não nossa mas como sendo. Ali  já longe do mar mas acolhedora também. E lá ficamos deambulando pelo balcão pela esplanada pelo pateo, a ver, a rir a conviver e a espairecer.

Este foi o primeiro dos dias. Não foi o ultimo. Não vai ser o único. Mas este foi único. Pela companhia pela amizade.
Sabe bem encontrar na vida pessoas assim, daquelas que conhecemos toda a vida um bocado de longe. Mas quando chegamos perto percebemos o quanto são grandes.
Há quem herde milhões, lute por mais e perda tudo. Aquilo que herdei, ninguém me tira e vale demais.

Bem Hajam.

terça-feira, abril 24, 2012

Alhos e Bogalhos

Na revista Sabado  nº416 de 19 a 25 de Abril 2012
Anos 70
O excêntrico
4/23/2012

Manuel Kelecom de Sousa Eusébio, conhecido como Manecas Mocelek, tornou-se o maior empresário da noite nos anos 70 – abriu a boîte Van Gogo, em Cascais, e o Ad Lib e o Stones, em Lisboa. Em 1973, ele e uns amigos disfarçaram-se de árabes milionários e chegaram de Rolls Royce ao restaurante Tavares Rico. Os jornalistas caíram na brincadeira – e isso acabou por custar o emprego ao chefe de redacção de O Século.
Hoje, o título de excêntrico é, claro, de José Castelo Branco. Nem vamos explicar porquê (e não, não vamos escrever uma linha sequer sobre aquele vídeo). (Susana Lucio)


Depois de ter visto este artigo na Sabado. Mandei-lhes a resposta:

Exmo. Sr. Miguel Pinheiro
Director Revista Sabado
Assunto: Direito de Resposta

No seguimento do artigo por vós publicado na revista Sábado nº 416, na secção Social com o titulo “Quem eram os Famosos há 40 anos”, paginas 102 e 103, serve o presente para expressar o meu mais profundo desagrado à peça escrita pela vossa colaboradora Susana Lúcio sobre o Sr. Manuel Kelecon de Sousa Eusébio com o titulo de “Excentrico” (pag. 103), comparando este Senhor com o Sr. José Castelo Branco.

Não preciso defender a memoria do meu Pai, porque essa está bem viva na alma de muito boa gente que com ele conviveu.

Não posso é deixar passar em branco uma comparação feita sem sentido nenhum, nem com um único ponto comparável. Tanto ao nível de personalidades das duas pessoas como ao nível do conhecimento publico.

Somente demonstra uma extrema ignorância da vossa colaboradora sobre a vida e a pessoa do Sr. Manecas Mocelek.
"Porque quem não sente não é filho de boa gente" considero uma afronta e uma ofensa à sua memória e bom nome a tentativa de ligar estes dois senhores.

Se para a vossa Revista , excentricidade é mascararem-se no Carnaval com alguns amigos e combinarem um jantar no restaurante Tavares, então , se me permitem, vivam mais!! E se possível vivam como o Manecas Mocelek..


Com os melhores Cumprimentos

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

D. Pedro do Algarve de Aquém e Além Mar

Não me lembro que idade tinha quando o vi, nem quando o vi pela primeira vez. Lembro-me que era sempre uma excitação esperar por ele e por todos dele em casa da avó quando chegava o fim do verão, ou melhor, o principio das férias de Natal, não me lembro quando é que era a altura certa para ele chegar, só me lembro que chegava sempre bem disposto com a Tia Mariazinha e todos os primos.
Não me lembro quantos eram ou quantos não eram, lembro que eram muitos e a casa da Avó, pouco cheio ganhava uma vida viva.
Lembro que era tanta gente que aparecia que dormiamos na mesma cama virados com os pés para a cabeça, para ninguém ficar no chão destapado.
Lembro-me dele, mais velho, o Tio do Algarve, parecido com o Tio de Cascais, muito parecido mesmo. Cara redonda, ainda com cabelo e uma barba que às vezes aparecia feita em bigode ou às vezes sem ele. Era uma surpresa tentar adivinhar como o Tio Pedro aparecia.
Falava pouco, inventava muito, construia ainda mais e engenhocava tudo e mais alguma coisa. Entrar no carro dele, uma carrinha, acho que era Ford, verde grande enorme onde cabiam os 7 com as malas e os brinquedos, era uma aventura.
Depois começou a aparecer com a carrinha um carrinho atrás, um porta malas, feito por ele claro!!.
Esperar pelos tios do Algarve, na mata de brito a olhar cá para baixo a ver a estrada ao fim do dia, na esperança de os ver chegar eram programas dos mais importantes que se podiam fazer!!
Lembro de Cascais no Natal, nunca no Verão, porque ser do Algarve não trazia vantagem nenhuma de o ver por Cascais. Mas os primos às vezes apareciam por lá em largas temporadas. Lembro-me dos presentes de Natal dados por eles, feitos por ele.
Lembro-me do Algarve, da quinta da balaia, da praia de Sta. Eulália, todos juntos a fazer pesca submarina, a andar num barco qualquer arranjado por ele. Das patuscadas no terraço da casa, daquela sala cheia de gente a dormir no chão, da comida farta na mesa, onde nunca faltava nada.
Mais tarde lembro-me de o ver sentado no jardim em Almansil a experimentar a rega gota-a-gota, acabadinha de ser montada por ele. Lembro-me, de o ver sentado numa cadeira de realizador, a carregar no botão a experimentar, a perguntar se viamos alguma fuga, e vi aos poucos o jardim e a familia a crescer à volta da Piscina.
Todos mais velhos, mas todos juntos à volta do Pai deles, que talvez por falta de um , fazia-o também um bocado meu.
Via-o sempre descontraído, descansado, sem se enervar, sem se chatear com nada, parecia que a vida para ele tinha sempre qualquer coisa de bom. Não o vi zangado nunca,... também o via pouco....
Acho que a vez que o vi a falar mais tempo, foi em Cascais, quando comemoraram 50 anos de casados. Contou a vida toda, como a viveu como a soube viver e como conseguiu sobreviver.
A ultima vez que o vi, foi como a primeira vez...não me lembro.
Mas lembro-me dele e lembro-me que foi um grande Avô, Marido, Pai, Tio, Irmão e mais outras coisas que não me lembro mas ele sabe.
BEM HAJA P.N A.M

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

Fazem me falta

Fazem-me falta aqueles amigos, reunidos à volta da mesa numa sala de granito aquecida pela lareira.
Fazem-me falta as garrafas de vinho abertas e meia bebidas, os copos vazios a pedirem carinho, o fumo no ar de um cigarro acendido.
Fazem-me falta os acordes e o trinar, da guitarra a cantar, e alguem lá atrás com a vóz a soluçar, canta baixinho um fado antigo.
Faz-me falta a escuridão do espaço, a noite escura e fria lá fora, e o silencio daquela sala.
Faz.me falta ouvir a madeira do soalho a ranger ao peso dos passos dados, faz-me falta isso tudo, e muito mais.
Mas não quero repetir, não quero tudo igual, quero só um bocado daquilo tudo, só outra vez. e quando sentir falta, poder lá voltar outra vez.
Porque vai sempre fazer-me falta. A sala a lareira, a guitarra o vinho a companhia a mesa, a garrafa, a noite escura o frio. E se poder sempre lá voltar, mesmo sem vinho sem frio sem lareira sem sala e sem companhia, sei que fazendo falta menos falta me faz.

Depois vem o dia, e fazem -me falta os passeios na mata, os galos a cantar o cão a ladrar as vacas e os passaros, o sol , o orvalho o frio do dia o calor do verão, as nuvem por cima do monte a mostrarem o tempo que aí vem.
Fazem-me falta os cheiros e as águas.
E se poder sempre lá voltar, sem calor ,sem nuvéns , sem mata, sem galos e vacas, sei que fazendo falta menos falta me faz.

terça-feira, dezembro 06, 2011

Ai Portugal Portugal...

Quando nasci o "outro" vivia sentado numa cadeira a pensar que mandava ainda.


Depois morreu, e segundo me contaram deixou um País de rastos, com o peso de uma ditadura cruel e violenta em cima. contaram-me.....


Não se podia ter isqueiro sem ter autorização, disseram-me. Havia uma prisão violenta que matava os inimigos ao regime, contaram-me. Existia uma policia que torturava, explicaram-me....


Morriam portugueses no ultramar numa guerra ignóbil e sem sentido, mostraram-me....


Era um País amordaçado, a viver a preto e branco, cinzento, onde todos eram tristes e perseguidos, ensinaram-me....


Depois, num dia de Abril a primavera chegou!! o povo amordaçado, controlado, perseguido, escorraçado soltou-se saíu à rua gritou revoltou-se e libertou-se, eu vi....


E a partir desse dia Portugal perdeu tudo, perdeu 500 anos de história, perdeu a vergonha, perdeu o respeito, perdeu a honra e a moral. Eu senti....

Mas o povo jubilou!! Estavamos livres tudo vale tudo é permitido.


Tudo o que era do antigamente era mau. Tudo era de todos tudo, não era de ninguém, também senti no pelo....


Até que depois de uns anos à deriva as coisas endireitaram, parecia.... mas o voo durou pouco... e o avião caiu....dizem....



Entre partidos, promessas votos e campanhas parecia que cresciamos.....
Chegou a Europa, que maravilha....chegou a estabilidade...que delicia, iamos ser grandes outra vez...que irrealidade...!!




Passamos a ser membros da Europa!! Espectacular!!

O dinheiro, entrou a rodos, sem termos de produzir nada... deixamos de ser pobres sem nunca termos criado riqueza!! Pelo contrário, esbanjamos, porque poupar era palavra de ordem do gajo das botas.

E o povo, rejubilou!! Carros Novos, Televisões Novas, Casas próprias, telemóveis, cartões de crédito ao desbarato, hipermercados, autoestradas, centros comerciais, Portugal tornou-se num País Moderno como o resto do mundo!!

Pobres??? não havia, e os que havia eram drógados coitados...

Casas, prédios, arranha-ceus, fachadas de vidro iluminadas. Um país virado para o futuro, com um futuro risonho cheio de dinheiro e riqueza para gastar. ninguém pensou em produzir o que fosse, não precisavamos. Tinhamos Doutores, Engenheiros, Politicos, Gestores o País pequeno tornou-se grande, Europeu.

E por trás disso tudo, uma nova classe cresceu surrateiramente, aproveitando a melhor caracteristica dos Portugueses,o desenrascanço, mas usando-a para proveito próprio com a desculpa do progresso sem se responsabilizar pelo futuro.

Subsidios para isto dinheiros para aquilo, os cargos publicos pagos com o dinheiro dos outros passaram a ser os mais bem pagos do mundo...

É a Democracia no seu esplendor.... politico que se preze não serve a Nação, serve-se dela, para proveito próprio. Tudo em nome da Democracia.

...Mas produzir...nada...para quê??



É preciso dar riqueza aos amigos que nada fazem que nada merecem que nada constroiem... e é melhor não esquecer os amigos dos amigos porque são invejosos e antes tê-los calados que revoltados...



e Assim seguiu o País... o povo feliz porque via os seus representantes todos bem vestidos, com carros topo de gama, relógios da melhor relojoaria... e o povo feliz continuava, porque tinha liberdade, podia dizer o que quizesse, fazer o que lhe apetecesse.



Ao mesmo tempo eles , aqueles que lutaram por esses valores, enchem os sacos, continuam bem vestidos, gastam o que não é deles, gerem fortunas de terceiros, ou melhor esbanjam esbanjam esbanjam como se tudo lhes pertencesse.



Mas o povo andava contente! Não andava unido, não interessa andar. Mas andava contente.
Até que tudo estourou!!

E agora? toca de pedir mais, continuar a não produzir, sacar aos que já não têm, sacar aos que têm e vão construindo num País que não os merece. Mas o povo é sereno, e até as vozes do passado se levantam como se tivessem arrependido do que fizeram naquele Abril.

E agora? Resta-nos o Fado? que nem isso é nosso agora, passou a ser da Humanidade....

E agora? Resta-nos o Vinho? Restam-nos os filhos? E agora?
Resta-nos a fé!? ... Talvez...

segunda-feira, maio 30, 2011

Passos Passeios e Passeotas

Cada dia que passo passa mais um dia para chegar ao fim. Espero sempre que esse dia passe depressa, e que seja o mais tarde possivel. Porque o tempo que passa parecer passar depressa demais para se fazer tanta coisa ainda.


parece que o que passou também foi curto e passou depressa. Na verdade hoje em dia passo algum tempo a pensar no que ainda falta e no que ja foi passado.


Do futuro só Deus sabe e a Deus pertence. Mas do passado que Deus me passou e fez passar só posso agradecer.





Descobri que sempre que me embrulho a pensar no passado tenho a impressão que cada vez o tenho mais e mais compartimentado. E a verdade é mesmo essa, o passado passa a fazer parte da nossa vida mas em compartimentos separados que às vezes se ligam ou que as vezes estão isolados ou escondidos.





Na minha ainda curta ( espero) vida tenho muitos compartimentos que os abro de vez em quando para perceber porque é que hoje sou assim e não sou assado....ainda não percebi, mas vou tentando sem grande esforço e com grande gozo. São fases da vida e estas memórias iram ser também uma fase.





A verdade é que até agora, apesar de não o ser, tenho tido uma rica vida rica. Se a riqueza se contasse pelo numero de Amigos, estava trilionário. No Facebook tenho mais de mil "friends". Na vida real, tenho mais de uma mão cheia e não chega a duas.





Se a riqueza se contasse pelas vidas que tenho encontrado e vidas que tenho vivido , então também sou milionário.





Nunca viajei muito. Nunca vivi fora do meu País. Nunca percorri este mundo e o outro. Mas vivi um bocado muito de um bocado de tudo. E isso para mim conta, conta muito.





Nestes tempos que correm todas as semanas procuro novas oportunidades de emprego, novos desafios. Todos me pedem o mesmo, o Curricutum. Acontece que com o que vivi o meu curriculum profissional não espelha o meu curriculum pessoal, e a parte pessoal na vida profissional é para mim muito importante, e cada vez mais importante.





Hoje um curso toda as pessoas têm. Uma carreira de 2 anos em novas empresas, também se arranja, uma subida meteorica a nivel profissional também é facil de encontrar. A diferença hoje está na experiencia pessoal de cada um. Digo eu...não sei.





Mas uma vidinha como a que tenho tido até agora, ninguém a teve!! Só eu.





Em miudo queria ser cavaleiro tauromaquico. O Mestre João Zoio era o meu idolo. Em cima da minha bicicleta no jardim de casa fazia faenas, metia curtos, compridos, violinos!! e a pé pegava o touro que mais não era a minha bicicleta com o guiador virado para a frente!! E Olé!!





O mar não me chamava, aprendi a nadar só aos 10 anos, mas já desde os 4 que andava nos colchões, no barco à vela contruido pelo meu tio, mas não era assim uma coisa que gostasse muito. Depois fui obrigado a gostar, e nunca mais deixei de gostar!! Bendita a hora que me forçaram. é das melhores coisas do mundo!! Um barco à vela e um dia de vento. Não preciso de muito mais para ser feliz.

O Campo atraía-me, o cheiro a terra molhada, os trigos a crescer os milhos a regar, a vinha e as videiras. O cheiro a caruma e a resina dos pinheiros. A terra, toda ele me chamava, e talvez me chame ainda. aí encontro a paz o sossego e o descanço, aí também estou bem.

Depois fui crescendo, e no meio de tanta confusão de gentes pessoas que passam e ficam ou vão comecei a gostar de saír à noite, talvez mais por uma imagem que tinha do que por gosto mesmo, talvez, não sei porque passei muitas noites em claro a rir a divertir-e a correr, a suar a dançar e outras coisas. Mas não encontrei aquele descanço aquela paz aquela sentimento de satisfação. Faltava-me sempre qualquer coisa, nunca era suficiente.

Agora, já a talvez meio caminho do meu caminho, começo a pensar se valeu a pena se fiz o que devia e o que não devia, se ainda vou a tempo para seguir o que me dá paz. E desta vez, acompanhado como deve ser chego a conclusão que ainda há muito para fazer. Só que já encontrei um fim para o caminho. E de certeza quando lá chegar descubro que afinal não é o fim mas um meio ou talvez o principio de outro.

Porque a vida é isso mesmo, continuar a procurar, mas o gozo está na procura e não no achado. O Por isso é que agora vivo um dia de cada vez à espera de nada a olhar o horizonte para não me perder e a gozar cada passo que dou. Ou que damos, já que não ando sozinho.

quarta-feira, março 02, 2011

Um Eusébio no Sporting

Pouco dado a desvaires futebolisticos, mas por imperativos de nome adepto do club da ave de rapina ( águia parece que é...) foi o meu primo convidado para se candidatar à presidencia de um certo club estacionado ali para os lados do lumiar-segunda circular.
O meu primo, que por acaso não é como o meu afilhado Tété que tem um nome igual ao meu. tem um nome igual ao daquele jogador que por troca de botas, parou pelos lados de Benfica em vez de se ter dirigido respeitosamente, digo eu não sei..., para os de Alvalade.
Acontece que tal club, com grandes glorias em outros desportos e achando-se glorioso no departamento de bola no relvado, anda perdido ( não sei se alguma vez se encontrou) por designios assaz estranhos à minha pessoa que não segue nem de perto nem de longe a novela futebolistica nacional e muito menos internacional. Perdido dizia eu , sem um presidente para o encaminhar para futuras glorias....dizem eles...
Assim, e pelo meu primo que não tem o mesmo nome que eu e que o do meu afilhado Tété, venho por este meio oficializar a sua candidatura ao tal dito grande clube verde e branco.

Um Eusébio no Sporting - é o mote principal da campanha. Que tem no seguinte manifesto os principais pontos para ser uma campanha de sucesso:

1- Angariação de novos Sócios. A candidatura "UM EUSÉBIO NO SPORTING" apela a todos os sócios do Spor Lisboa e Benfica, a filiarem-se no Sporting Club de Portugal, de forma a criar uma massa associativa numerosa para que nas eleições votem na candidatura "UM EUSÉBIO NO SPORTING".

2-após vitoria nas eleições a candidatura "UM EUSÉBIO NO SPORTING", irá vender todos os activos e passivos do Sporting Club de Portugal, ao glorioso ( esse sim!!) Sport Lisboa e Benfica, pelo valor extraordinário e acima de mercado de 0,42€.
De forma a que o glorioso possa por fim ter um campo de treino perto do seu local, passando toda a estructura existente no Seixal, para o estádio adquirido.

3.Tendo consciencia que as instalações adquiridas, são mesmo assim inadequadas para o treino das equipas do Sport Lisboa e Benfica, toma a candidatura "UM EUSÉBIO NO SPORTING" o compromisso de em breve remodelar todas as instalações começando pela cor "verde escarreta e amarelo foge que é feio" além de obras estructurais.

4-de forma a preservar o espolio existente dos troféus, a candidatura "UM EUSÉBIO NO SPORTING" irá manter uma area museologica.

Prontos, foi isto que o meu primo Eusébio pediu para divulgar. Pessoalmente e apesar de ser meu primo, não concordo muito com a campanha e o programa.... mas até não desgosto totalmente. Acho que falta um espaço para a águia Victoria, poder voar de novo como deveria fazer, sem confusões e outras complicações.....

segunda-feira, janeiro 17, 2011

A Praia

Aquela praia embora não sendo minha, foi nossa durante muitos anos. Mas não era só a praia, era a casa também. E não era só a casa, eram as gentes que todos os Verões lá estavam, lá passavam lá almoçavam lá jantavam.
E não era só as gentes, era a varanda, o vento a vista, os cheiros. E também não era só isso. Era o farol de um lado e o pontão do cais sul do outro.
Eram as bolas de Berlim, eram os caracóis da tasquinha do lado, as famosas sandes de coiratos na roulote.
Eram as bicicletas e as corridas à volta da casa. Era a arrecadação a divisão mais importante e divertida da casa das gentes dos primos dos tios.
Eram os Verões , os banhos, as almoçaradas debaixo das arcadas, as jantaradas ao som das cigarras com o cheirinho de um fim de dia passado em banhos de água do mar. Aquele cheiro de fim de tarde, aquela luz de principio da noite. Eram os cedros a perfumar o ar, a cantarem com a nortada.
Eram aqueles dias de calmaria com o calor a bater no terreiro, todo ele ancinhado e regado na véspera ao fim do dia, para não entrar o pó.
Eram aquelas manhãs com o sol em frente o mar a brilhar.
Naquela casa entrava a Lua, entrava mesmo! marcava no mar um caminho com reflexos que batiam nos vidros da sala.
E aquela praia, só nossa sem ser nossa. E aquela rocha com degraus e bancos e aquela escada com corrimão. E aquela areia onde se faziam corridas de caricas, corridas de caranguejos. onde se aparelhavam os barcos.
E o cheirinho do pão molhado no pequeno almoço com café com leite tomado na copa com o sol a chamar-nos lá fora.
Era toda uma vida, todos os Verões todos os anos durante anos.
E eram os Natais também, o barulho das lareiras acesas o cheiro a encerado daquelas portas daqueles corredores, o cheiro dos petromax.
O calor daquele presépio todos os anos diferente, todos os anos enorme naquela sala, naquele escritório.
E era o barulho dos trincos das portas, do elevador dos pratos, da fechadura da porta de entrada.
E a chuva e o frio e o vento lá fora, a bater nos vidros das janelas protegidas pelas rótulas aos quadradinhos. E foi tão bom assim durante anos e mais anos.

E o jardim? e a guarita? e a mesa de pedra? e o banco no canto do jardim ao pé da ponte? e os cactos e as piteiras? e o chorão que teimava a crescer pelo chão?

Não era só a praia... foi toda uma vida.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

D. Diogo

As voltas que as nossas vidas dão fazem-nos por vezes cruzar com certas personagens que não damos importância, mas que sem querermos acompanham-nos lado a lado como uma sombra sem notarmos.
D. Diogo é uma dessas personagens, desde cedo sem saber tivemos as nossas vidas partilhadas e continuamos a ter. Ou pelo mesmo autocarro que apanhamos, ou pela mesma equipa de rugby, ou pelo trabalho, ou pelos amigos que nos vão aparecendo.
Neste caso foi um bocado de tudo. D. Diogo desde menino partilhava comigo a paixão do rugby e por acaso da vida jogamos no mesmo clube, ele nos mais novos, por o ser assim toda a vida, eu pelos mais velho por o assim ser a vida toda.
Em comum tínhamos o rugby, o clube e o autocarro que partilhávamos sempre que voltávamos dos treinos, sujos cheios de lama.
depois crescemos e cada vida tomou o seu rumo, mas sem sabermos sempre lado a lado sem nos tocarmos. Ele continua ferrenho apaixonado pelo desporto, eu já nem tanto...
Às vezes de vez em quando lá nos cruzávamos numa noite, num balcão do bar, numa festa de anos e de novo seguíamos o nosso caminho.
Já mais tarde dei por ele ao balcão do restaurante Estufa Real. Sem sabermos ficamos a saber que nos tornávamos membros do mesmo clube profissional, da mesma empresa. Foi um reencontro dos encontros passados.
De novo estávamos no mesmo caminho, de novo em caminhos paralelos, cruzávamos nos corredores, nas viagens nas almoçaradas. Discutíamos nas decisões, discutíamos nas preocupações, mas partilhávamos uma amizade.
E a amizade cresceu, embora não nos cruzássemos muito como amigos.
D. Diogo de novo seguiu outro caminho, rumou a Norte, á mesma cidade de onde alguns anos antes eu já tinha subido e retornado. D. Diogo subiu, e sumiu.
Fui sabendo dele por intermédias pessoas, amigos comuns, e pouco mais.
Depois voltou de novo e de novo nos cruzamos. Chamou-me para um almoço no Piazza di Mare.
Chamei-o para o meu casamento, junto com todos os nossos amigos comuns. Era um amigo e os amigos não se esquecem.
D. Diogo, também não se esqueceu, e como um anjo da guarda, sem perceber. Estendeu-me a mão quando precisei. Ao contrário de pessoas que julgava bons amigos. D. Diogo mostrou o verdadeiro valor de amizade. A responsabilidade foi grande, um Amigo destes não pode ser nunca desacreditado. Aceitei o desafio, e espero não o ter defraudado.
D. Diogo prosseguiu de novo por um novo caminho, mas nestes últimos dois anos, sem perceber mostrou-me que ainda existem pessoas de bem em Portugal.
D. Diogo é um deles. Sem o perceber, apoiou-me em horas difíceis, estendeu-me o braço, chamou-me à razão, mostrou-me o valor dos princípios que os nossos Pais e Avós nos passaram.
Sem perceber deu-me força para seguir em frente, para acreditar.
D. Diogo seguiu de novo, mas desta vez sei bem onde vai.
Montou num cavalo Lazão, calçou botas de camurça ruça e nelas enfiou um esporão!

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Foi assim....

Naquela tarde andava meio cabisbaixo. Assim murcho mas sem ser do frio.
Era um sexta feira e as aulas estavam a chegar ao fim de semana, a folia começava a instalar-se. Como de costume, todas as semanas, às sextas feiras antes do jantar e depois das aulas apanhava o 38 para fazer o percurso todo até ao Estádio Universitario.
Éramos sempre os mesmo 3 que apanhávamos aquele autocarro. Éramos amigos, colegas de escola, companheiros de equipa. Jogávamos no S. Miguel, jogávamos rugby, aprendíamos a crescer juntos ainda. Esta sexta era igual a muitas outras passadas, mas já há uns dias que andava cabisbaixo.
Não fazia um mês e tinha morrido a minha Avó. Daquelas avós que todos temos e que são só nossas apesar de sermos muitos netos e todos queridos.
A minha avó tinha sido minha, muito minha, era com ela que tinha vivido até aos 11 anos, era com ela que tinha aprendido que o Pai Natal não existe, que Jesus nasceu numa manjedoura e morreu na cruz. Que estar sentado à mesa com os cotovelos em cima é feio e não se faz, que se agradece sempre. Que nunca se diz que não. Era a minha avó, aquela que me ensinava inglês depois de vir das aulas, aquela que me coseu o cobertor para o Menino Jesus não ter frio no presépio à noite quando se apagava a lamparina de azeite. Era a minha avó que tinha a gaveta das nossas bolachas e chocolates, só dela, só nossos.
Tinha morrido, e eu andava cabisbaixo. A primavera estava a chegar, era 8 de Abril de 1988, era sexta feira e estava no autocarro a ir para o treino. Tínhamos jogo no sábado, para a taça de Portugal, estávamos bem lançados para a ganhar, tínhamos que a ganhar. Pelo S. Miguel, pelo club, pelos amigos e por nós.
O treino correu bem, e pegamos nos sacos, directos dos balneários. Não tomávamos duche naquela altura, chegávamos a casa todos sujos, sujávamos o autocarro, divirtiamo-nos a atirar bolas de lama aos transeuntes, éramos miúdos ainda.
O Jantar estava á minha espera. Depois do banho, sentei-me à mesa em casa. pensava na minha avó andava cabisbaixo, tinha morrido à pouco menos de 1 mês. Acabei de jantar e resolvi ir ver televisão, eram umas 11.00 da noite, a minha querida Mãe e o meu Padrasto, foram-se deitar. fui para o quarto ler.
Era sexta feira 8 de Abril, sozinho no quarto, resolvi telefonar aos meus amigos. Vamos aqui, vamos ali, vamos até ao Golo beber umas imperiais antes de ir para o Bananas.
O Bananas, aquele monstro, aquela catedral onde todos queriam entrar, passar as portas, brilhar entre os amigos, uns com os cartões dos pais, outros pela mão dos irmãos, dos tios, dos primos.
Entrar no Bananas era um dos pontos altos da noite. Não pagar a entrada era o clímax!!
Podíamos orgulhosamente dizer, "entrei...e não paguei!!". Poucos conseguiam o feito. E quando o faziam, não tinham adquirido nenhum estatuto eterno. Para a semana o desafio era o mesmo...

Saiamos dali do Golo, aquela bela cervejaria cheia de cascas de tremoços no chão a cheirar a cerveja azeda, com as mesas peganhentas, as cadeiras amachucadas. Onde as imperiais a 50 escudos faziam os preliminares para o Bananas. O desafio era gastar o suficiente no Golo, para entrarmos no Bananas, se gastássemos demais, entrar no Bananas sem pagar ainda trazia um gozo maior!! Gastar no Bananas era fundamental, ninguém podia ser apanhado sem copo na mão. Passávamos as noites a dançar, a pista era o nosso refugio, ali não podia haver copos. Ali estávamos salvos.

Naquela noite estava cabisbaixo, em vez das imperiais, deram-me uns bagaços, acho que eram. O meu amigo Titão quis animar-me. Bora lá vamos pó Bananas. E fomos.

Na porta sempre a mesma multidão sempre os mesmos. Respirei fundo e disse, Titão, vamos até ao Ad Lib, era 1 da manhã mais coisa menos coisa... Vamos lá, quero ir conhecer o meu Pai!

O Titão olhou, conhecia a história que não o conhecia. Viu que estava a falar a sério, dentro do sério que podia estar com dois bagaços. E fomos. o 27 passava perto, como passava em todo o lado em Lisboa.

Chegámos os dois, não tínhamos 18, não podíamos entrar, não éramos clientes, mas tinhas uma grande cunha! o meu Pai tinha sido dono, era agora o gerente, não nos iam impedir de entrar.

Mas impediram. e explicaram, não temos idade nem ninguém deu o recado que íamos lá. fiquei triste, não era ainda desta vez. Mas logo a seguir o porteiro explicou. " O seu Pai, também ainda não está cá, está no 37 no restaurante dele, se lá quiser ir chamo um táxi, mas não lhe diga que fui eu que disse...sabe como ele é..." ; "Não sei..." respondi, agradeci.

Coincidencia!! Coincidencia!!, Não há coincidencias como diz a minha querida Maggie. O 37 era da tia do Titão também. Era fácil lá chegar. Somos miúdos, fomos a pé do Marquês à Lapa, naquela altura e aquelas horas era fácil.

As pernas começaram a tremer, não pelo treino de 3 horas de rugby, não pelo andar. Mas à medida que andávamos para a o Restaurante, os nervos começavam a apertar...
... e o que vai acontecer??
...e se diz que não sabe quem sou?
...e se diz que não quer saber, que não tem nada a haver com isso?....

Mas, e se diz olá? e chora e me abraça e fica contente? e me chama filho?.

Já o tinha visto há um tempo atrás no enterro de um parente, na altura a minha Mãe virou-se e disse, aquele ali alto com a sra. velhinha ao lado é o seu Pai e a sua Avó. ( a outra minha avó.)
Desde esse dia que lhe quis apertar a mão, dar-lhe um beijo. Ia ser hoje, ia ser agora!! ou talvez não...

Chegamos ao restaurante, Rua S. Caetano 37, a abarrotar, cheio e maior fosse mais cheio estaria. Éramos miúdos, era fácil passar pela multidão que se apinhava no balcão à espera de mesa para comer o famoso Bife na pedra.

Lá estava ele, de cigarro na mão e copo no balcão.
Cheguei perto, toquei-lhe no ombro, voltou-se e olhou-me.
Olhamos os dois, e um segundo depois que pareceu uma vida inteira disse-lhe a forçar para que a voz não tremesse.

"Olá!, Não sabe quem eu sou, mas sou seu filho!...."

Esperei, tremi, suei,esperei, e mal ter acabado de falar respondeu.

"Finalmente! Até que enfim!!, desculpa!!"

terça-feira, dezembro 07, 2010

Lições de Vida

Foi já há uns quantos anos, não sei mesmo quantos mas há alguns tantos ou mais do que aqueles que me lembro.
Foi antes do almoço, uns minutos antes, foi no Inverno, estava um Sol radiante, um dia daqueles carregado de frio com um azul delirante.
Foi no jardim em frente da casa, com uma vista deslumbrante para a planície, apontada a sul, sem ter fim. Era Inverno já disse, o campo estava verde, carregado de tons de verde escuro, verde claro e verde verde.
No jardim, em frente à casa virada ao Sol, estava um lago, que ainda lá está. Um lago redondo, talvez seja mais um tanque, ou uma fonte do que um lago. Lá dentro uns peixes daqueles pintalgados, bem grandes, vim a saber, eram carpas koi. O Lago, ou tanque ou fonte é quadrado com os cantos cortados, em cada canto uma roseira, tímida a crescer, ou recolhida pelo frio. Junto de cada uma delas, uma cana a segurar-lhes e a dar amparo.
Estava frio era antes do almoço. resolvi dar um salto do sofá e saltar para o jardim espreitar o lago.
No meio do frio vi os peixes dentro de água, eram grandes e eu um miúdo ainda, a aprender a crescer com outros amigos, novos também, mas daqueles que ainda amigos são. A casa era do pai deles. Tinham tudo , perderam tudo recuperaram tudo, e aquela casa teve a mesma história, completamente desfeita pelas ondas revolucionárias, foi refeita pelas ondas da persistencia e do trabalho do pai.
A casa estava ainda a recuperar do temporal pós Abrilista, tudo nela respirava a orgulho, cada pedra do jardim, cada roseira no canteiro, cada peixe, tudo. mal entravamos na Quinta, éramos envolvido por uma sensação de um honroso renascimento, de uma luta ganha.
Cheguei junto ao lago e quis brincar com os peixes, atirei pedrinhas, arranjei um pão duro na cozinha e despejei migalhas, ali estive pouco mais de 20 minutos à volta dos peixes, que subiam, desciam, iam e voltavam curiosos a ver o que lhes deitava na água. Por fim resolvi pegar numa cana das roseiras, espetei um bocado maior de pão e mergulhei a cana na água para ir brincando com eles.
De repente, ali da soleira da sala da casa que dá para o jardim virado ao sol onde estava o lago, chamaram-me para a mesa. Todos estavam à minha espera, entre 20 pessoas, adultas e mais crianças, eu, um convidado daquela casa, daquela família estava a fazer esperar toda a gente...

Tremi, tentei espetar a cana uma vez, duas e três, e nada, caiu para o lado. À quarta vez espetei com mais força, e corri para a mesa, olhei para trás e vi a cana a cair no chão, encolhi os ombro, pensei "que se lixe é só uma cana...".

Entrei na casa de jantar com todos à minha espera, era cozido, estava frio lá fora e o cozido já começava a arrefecer. Pedi desculpa à dona da casa, à mãe dos meus amigos que me tinham convidado pela segunda vez. Não houve problema. Até que o pai, me disse.
"Só te sentas à mesa depois de ires lá fora por a cana no sitio. Estive a ver-te brincar e viste que a cana caiu e não voltaste para trás. Agora vais lá por a cana no sitio e só voltas quando ela estiver posta como deve ser.
Primeiro não tinhas nada que tirar a cana do sitio. Se estava ali, foi porque alguém a pôs e teve trabalho a -la, não é assim que se trata o trabalho dos outros. Tens que ter respeito".

Voltei a por a cana no sitio. Nunca mais me esqueci. Tinha 12 Anos, e aprendi assim a respeitar o trabalhos das outras pessoas.

José Manuel de Mello, foi quem me deu a lição. Bem Haja

quinta-feira, novembro 11, 2010

16 Anos depois ainda o Manecas

Eram mais ou menos 10 e pouco da manhã. Estava num curso de vendas de produtos ultragongelados quando o telefone da sala de reuniões tocou.
Chamaram o meu nome, atendi, era a minha Mãe a dar a noticia. Aquela noticia que já tinha recebido uns meses antes sobre o meu padrasto que foi meu Pai. Só que desta vez a noticia era sobre o senhor meu Pai mesmo.

Já estava à espera a qualquer momento da noticia, achava-me preparado, sabia o que esperava, porque já tinha passado pelo mesmo. Pelo menos achava eu.
Por isso não estava preocupado assim por aí além, estava conformado, é o ciclo natural, tudo se iria repetir.

Mas não, desta vez a noticia caiu com força, um nó na garganta apertou-me a voz, fiz força para conter as lágrimas e manter-me em pé. Mas não fui capaz. Mal desliguei o telefone, o Dr. Palestrante para mostrar autoridade falou:
- Desta vez passa, mas não posso deixar interromper mais vezes a palestra com telefonemas pessoais.

De pronto respondi-lhe. Não se preocupe, não me vai interromper mais, foi só o meu Pai que morreu. E Saí.

Até hoje aquele só o meu pai, transformou-se em muita coisa. Não tinha sido só o meu Pai. Tinha sido para muita gente, bem mais aquela que imaginava e imagino, um amigo que tinha morrido.
Passados 16 anos, todos os dias ele aparece-me a dar-me conselhos ou palmadinhas nas costas como costumava fazer.

Não tinha sido um bom pai, aliás não tinha sido nem foi um Pai como deve ser. Mas foi o meu, durante os 6 anos que o tive comigo. Graças a Deus, como Pai que me criou tive mais que um, e todos os dias lembro-me deles também.

Não foi um pai exemplar para um filho, mas pelo que tenho vindo a saber, foi uma pessoa exemplar para muita gente. Fez muita asneira, não foi correcto com muitas pessoas... Mas a verdade é que para muitos foi um amigo, um companheiro, um pilar e um exemplo.

Talvez tenha sido um grande homem, para muita gente. Para mim foi e ainda é. E é dificil tentar ignorar que tenha sido um bom homem, porque todos os dias alguém , que muitas vezes não conheço, vem ter comigo e diz..."era muito amigo do teu Pai!".

Ao principio estranhei e desconfiei, não acreditava que fossem todos amigos dele, mas a verdade é que, 16 anos depois, mesmo nos confins de um canto qualquer do mundo a frase aparece-me por algum ilustre desconhecido. Hoje em dia acredito que realmente tinha muitos amigos. Não Grandes Amigos, que esses felizmente sei quem são e foram. Mas que os tinha tinha.

Na altura que o conheci, já eu tinha 18 anos, comecei a tratá-lo por Velho, não por sê-lo ou parecê-lo, mas porque os amigos assim o tratavam também.

Era apanágio todos os finais de noite, irmos ter com o Velho, ali na rua do Olival, onde estava sempre encostado ao balcão com dois maços de marlboro abertos e um copo de whisky on the rocks cheio. Sempre com um sorriso na boca e os braços abertos para nos receber num grande abraço.
É assim que me quero lembrar dele, é assim que não me quero esquecer dele.

Para muitos foi o Manecas.
Para mim foi o meu Pai, o Velho. Não foi um pai, mas o que foi gostei.

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quinta-feira, outubro 21, 2010

Dois em 1

Se a moda pega, e parece que está cada vez mais a pegar, vamos por um caminho bastante interessante...

À conta de tanto escandalo, tanta pouca vergonha tanda desavorgonhaça, tanta...sei lá o quê estão cada vez mais, os politicos , os governantes os ministros e outros tantos fideputasruins, a usar o metod dos jogadores da bola.

Falar na terceira pessoa, só que estes, em vez disso, falam na segunda ou terceira ou quinta ou mesmo sexta(depende dos empregos e jobs que conseguem acumular) figura contratual.

-O sr. Ministro das finanças acha bem o que o estado está a fazer com as contas publicas? e as cobranças de impostos?

-Bem...eu como ministro acho bem!! mas como cidadão já não concordo!! É um roubo!! Mas sabe, o ladrão sou eu... quer dizer , eu como ministro, não como cidadão.

-Mas quando é que é ministro quando é que é cidadão?

-Atão isso é facil, geralmente sou ministro. Só quando calah é que sou cidadão. Sou sempre cidadão quando estou a dormir, isso não tenha duvidas!!

-Ahhh pois, compreendo, se fosse ministro quando se deitasse aposto que não dormia...

-Lá está!! Tá ver? É isso mesmo. Quando me deito sou cidadão, e adormeço a pensar a sorte que tenho de não ser ministro naquela altura. Depois quand me alevanto, ainda sou cidadão, mas mal me sento na pia, transformo-me em ministro, ainda não sei muito bem porquê... mas dá-me o click e tunga fico ministro, no banho sou ministro, é a aprte do dia em que ser ministro é melhor, fico ali com a água a correr a pensar onde vou roubar mais os cidadãos....
No carro com o motorista, aí sou cidadão, para estar ao nivel do motorista.

-Haaa sobe de nivel então!!.....

quinta-feira, setembro 30, 2010

À que virar o bico à Pedra

Xiii o que práqui bái de esterismo. Hoje alebantei-me erão práí umas cinco e meia da manhã, proque o raio do sr. bisconde deu as instrussões ao Valério Gomes o nosso capataz que queria que as cabalarissas focem todas alimpas e postas a brilhar que o bisconde ia convidar uma gente da sua laia que são todos titulares de nomes e titalus importantes...lá pra eles qu'eu pra mim importante importante é o sr. Bisconde não saber que às vezes salto prá monda de feno ca sua cunhada...

Erão já seis e meia quando cumessei a limpar as cabalariças, larguei os cavalos no campo para correrem um bocado, fiquei aflito qu'aquelas pilecas já tão velhas e qualquer dia menos agente espera caiem pro lado com um afarto do coração, tadinhos dos bichos.

Pelo que o Valério Gomes me disse o Visconde anda todo atarefado. Pediu para lhe enxermos a casa com comida. Foi por isso que lá deichamos 3 javalis e 60 perdizes, que o visconde julga que caçou no outro dia.... se ele sabe que 2 javalis e 78 perdizes foram parar a casa do Ramiro Jacinto, o pastor que andou a fazer de batedor mais a gente...e que só demos aquilo ao Visconde.... a sorte é que o Ramiro é cá da gente e não vai contar nada, também se contar, tá em sarilhos porque ca divisão ele ficou com 1 javali e 30 perdizes...
O que interessa é deixar o Visconde contente.
Contou-me a dona Maria, a cozinheira, que o homem lhe pediu para fazer uma feijoada de faizão.... a Dona Maria fez a feijoada...mas o faizão.... é coisa que há muito tempo não vai à mesa do visconde... sempre que há faizão, aparece na mesa uma mistura de pato e galo na mesa dele.
O próprio do faizão esse, ou esses ficam sempre na cozinha à disposição dos lavradores e demais pessoal da casa...é um pitéu...tal qual a cunhada do Visconde...

Tivemos ainda que por uma mesa corrida na adega porque o Visconde quer lá fazer a cerimónia do vinho novo. Aqui é que a gente se ia intalando, não fosse o meu mai novo que tem amizade com o capataz das terras do lado das do sr. Visconde, estavamos assim um bocado atrapalhados. Lá nos dispensou uma pipa com vinho avinagrado a que deitamos umas boas enfuzas de água açucarada, até parece que o vinho é daqueles de coleccionadores... Tá todo engarrafadinho como mandou o Visconde... o vinho novo também tá todo engarrafadinho, mas em casa da nossa gentes...

lá nos safamos amais uma vez, isto cada ano que passa vai ficando mais dificil de conturnar as coisas, mas a gente o que quer é ver o Vsconde feliz, assim não ficamos com penas de lhe adisfarçar das coisas boas lá da casa para as nossas.

Assim como assim o Visconde até qué um homem de bom coração e boa gente, mas a gente não faz por mal, é assim tipo uma partida de carnaval...já dura vai é pra mais de 15 anos....

Fado ao Barão de Navarra

Por ocasião dos seus 45 Anos, uma adaptação do Fado do Estudante.



Fado do Vasquinho

Que bela peça está aqui
Tal qual barril d’agu ‘ardente
Ai que saudades temos de ti
Quando nem sequer eras gente


Nesse saudaz tempo de amor
Nada para ti era melhor
Que um contentor com resmas de raparigas


De peito ao ar botim ao léu
Vivias tu lá no laréu
sem te ralares
e tudo mais eram cantigas


Nenhuma delas te prendeu
Com força aos pés da cama
Até ao dia em que apareceu
Um Maganão lá d’Alfama

Sempre sentado num carrão
Botim de pele com tacão
Vinhas a rir com um bidão e ar descarado
Pra emborcar um pouco mais
Ias dançar para os arraias
Pra namorar beber folgar cantar o fado


Recordo agora com saudade
As coparias qu’ele bebia
Eram barricas sem idade
Da melhor enologia

Evoco em mim recordações
que não têm fim desses serões
No botequim daquele lagar de má fama
Noites passadas a cantar
Entravas sempre cheio de classe
Onde bebias sete dias por semana...

Ao Vasco vai toda a minha fé
Em amizade e simpatia
É nobre no trato e até
A cantar fado atrofia

Quando é chamado tem pavor
Mesmo desafinado e sem rigor
Tens medo ò Vasco mas ninguém há que te resista
É o nosso amigo popular
tem emoção faz-nos calar
e eis a razão de estar cá hoje ò meu artista!!

Há Festa na Pedra!!

Hoje acordei mais tarde, fui ver a aranha do primo Velho...oxalá trouxesse algum dinheiro, não a encontrei. Deve ter ido montar a teia noutro canto mais escondido.

Começam hoje por aqui os preparativos para o grande fim de semana que se adivinha.
100 Anos de Luto, é uma data importante que tem de ser celebrada.
E nesta casa as celebrações obrigam a comemorações.
Os cavalos neste momento já seguiram para o prado. Estão à solta para esticarem as pernas e rebolarem no pó como que estivessem num spa a fazer esfoliação.
Os moços de estrebaria, aproveitam e estão a limpar as cavalariças, camas novas, ração redobrada, um banho e barrela ao chão e às manjedouras. O Ti Manel está a dar retoques nas pinturas e o seu filho mais novo, o Narciso, a concertas as gambiarras e os candeeiros.

A partir de hoje a casa vai ficar iluminada até dia 4 à meia-noite. À meia noite e um minuto tudo se apagará. o escuro vai voltar, para acompanhar a escuridão destes últimos 100 anos.
A Bandeira Azul e Branca vai descer a meia haste e vai-se cantar o fado.

O patio está a ser varrido das primeiras folhas de Outono, com o barulho tipico da vassoura de tojo do sr. João.
No jardim, ajardinado, a carranca vai ser ligada para se ouvir a água a correr. Pára também à meia-noite.

Foram mortos 3 javalis e 60 perdizes nestes últimos dois dias. Está cheia a despensa. Na cozinha a azáfama começou cedo e a menina Maria, cozinheira de mão cheia está já a preparar a feijoada de faizão, para ser servida daqui a dois dias...nada como uma feijoada apurada.

Os convivas começam a chegar já hoje. O Barão de Navarra, no seu elegante porte e altivez, sempre com os seus botins imaculadamente encebados enviou um telegrama a confirmar a chegada hoje pelas 4 da tarde. A sua mulher, a Baronesa de Lavra, chega sábado de manhã no primeiro comboio.

Os Marqueses de Fofo também confirmaram a presença. Vêm com a viola e a guitarra portuguesa para animar os serões. Foi providenciado o melhor quarto da casa, com vista para a mata, sobre as parreiras das vinhas.

Na adega o Jacinto da Bilha começou a engarrafar as 240 garrafas do vinho da última pipa. O rótulo azul e branco com o brasão da familia vai ser colocado ainda esta tarde. Assim que engarrafar o vinho vai limpar a adega e encher o lagar com petalas de flores, azuis e brancas, claro está.
A primeira ceia e a cerimónia da abertura do vinho vai ser feita na adega, que já está quase toda engalanada, e montada uma mesa corrida entre as barricas e os toneis. Este ano as tochas a petróleo foram reforçadas para dar mais luz e calor que as noites já começam a arrefecer.

Sexta feira à noite chega D. Inês, Condessa do Baleal, ainda não sabe se vem com a sua querida amiga a Viscondessa de Lourenço Marques, que se encontra ainda adoentada.

No Domingo, por entre as horas do pequeno almoço e o Almoço, junta-se aos convivas o Visconde Estorninho, eximio esgrimista, um apaixonado pela viola de fado e excelente contador de Estórias.

A companhia está quase completa, ainda não há noticias do Conde de Bergerac, acabado de vir de uma viagem de circunnavegação, encontra-se ainda a recuperar de uma doenca venerea apanhada junto às praias da Polinesia Francesa, junto com o seu adido cultural o benemérito Duque de Moledo e Vital.

As celebrações vão ser importantes e esfusiantes. Pela tristeza das celebrações oficiais aos 100 da Republica mas principalmente pela alegria do conbibio!!

Vivá Monarquia e tal e coiso!!

quarta-feira, setembro 29, 2010

Uma Pedra Furada no sapato

Cheguei ontem já o sol se escondia por detrás do S. Miguel. A primeira coisa a fazer, claro está foi, ir à fonte buer aquela água que só aqui é que há. Depois inspirar fundo e sentir todos os cheiros que me são queridos. Passou quase um ano sem cá ter vindo e já estava a entrar em parafuso.
A casa impecável como sempre deu-me as boas vindas com um ranger das madeiras e o ladrar do Bau Dai.
Arrumei a tralha toda porque não tarde chega a Dáma e desarrumações não é com ela. Se me visse agora... de pijama na casa de jantar a tomar o pequeno almoço vindo directo da cama, também não ia gostar. Mas estou sozinho e ninguém vai saber.
Lá fora o dia apareceu frio, a mostrar que o outono já aí está, e vai ser preciso um agasalho mais do que aquilo que estava à espera. Já abri as janelas para entrar a luz, já vi o melro a jogar ás escondidas no buxo. O galo já cantou as galinhas já andam cá fora. Na Mata, que está verde e imaculada dos fogos que à volta arderam os carvalhos ainda não acastanharam os castanheiros carregados de ouriços prontos a serem abertos daqui a mais algum tempo. O plátano e o carvalho do Canadá ainda têm o verde do verão mas já se nota nas pontas algumas folhas menos verdes.
As ramadas à volta da casa, já sem os cachos de uvas estão a dourar ao sol, umas mais que outras, mas ainda todas cheias de folhas.
Hoje vou espreitar os figos, dar um salto à poça para ver a água, sentar-me na pedrafurada para descobrir um esquilo e quiçá subir ao pico.
Tenho que encontrar os peixes as carpas que o meu amigo Barão de Navarra, me ofereceu à um ano atrás.
O lago está limpo e cheio, o jardim ajardinado e o pátio arrumado. Tudo num sossego e descanso daqueles que me fazem preguiçoso, haaa mas sabe tão bem!!
Dentro de casa nada mudou, tudo no seu lugar, tudo impecável como à tantos anos tem estado. A luz eléctrica e a sua instalação é nova, novinha mesmo e a diferença para melhor nota-se.

Não me posso esquecer de ir provar o vinho. Que como me dizem todos os anos... "Tá buom menino!" , é um sacrifício que tem de ser feito. Vinho tinto verde, de vinhas velhas e outras menos novas, feito como se fazia à cem anos atrás, pisado a pé, ralado no ralador manual, fermentado ao ar e filtrado na bica. Não envelhece em toneis, não estagia em barricas de carvalho francês, não é fermentado com controlo de temperatura, não tem os aromas a blá blá, nem é bom para acompanhar isto ou aquilo.
Não aparece nas grandes garrafeiras nem à mesa de ministros e generais. Ninguém fala nele nas provas e feiras de vinho. Não é preciso. Um néctar destes, só pode mesmo ser servido para quem gosta.
Mas é nosso, vem da nossa terra das nossas vinhas da nossa adega.

è aqui que me sinto em casa, é este o meu bocado do mundo. E embora não seja mesmo meu, é por aqui que me reencontro e recarrego para voltar para aquela vida sem nexo.