sexta-feira, março 20, 2026

O internetês

Tenho para mim que hoje em dia já não falamos português. Falamos… internetês com sotaque de algoritmo.
Uma pessoa já não vai jantar fora — vai ter uma “experiência gastronómica super instagramável”. E atenção: não é a comida que importa, é a luz. Se a luz não estiver boa, a francesinha pode vir assinada por um chef Michelin que ninguém quer saber. “Não está aesthetic.”
E depois há os memes. Antigamente contavam-se anedotas. Agora manda-se uma imagem de um gato com ar existencialista e está dito tudo. Aliás, se não houver meme, parece que a conversa nem aconteceu. É tipo:
— “Como estás?”
— “manda GIF de alguém a chorar e a rir ao mesmo tempo”
Pronto, diagnóstico feito.
E as expressões… Meu Deus, as expressões. Já ninguém diz “gostei”. Diz-se “amei”, “viciei”, “estou obcecado”. Uma pessoa prova um pastel de nata e de repente parece que entrou numa relação tóxica: “não consigo parar, preciso disto na minha vida”.
Depois há o clássico “literalmente”. Tudo é literalmente.
— “Estou literalmente morto.”
Não estás, João. Estás só cansado e dramático.
E o “cringe”? Antigamente chamava-se vergonha alheia. Agora é “cringe”, que parece mais leve, mais internacional… mais sofisticado. Porque passar vergonha em inglês dói menos.
Nas redes sociais, então, é outro campeonato. Já ninguém publica fotos, publica “conteúdo”. E não são seguidores — são “comunidade”. E não se vende — “cria-se valor”.
— “Malta, hoje venho partilhar convosco…”
Partilhar o quê, Sandra? Um chá detox e um código de desconto?
E depois há o “random”. Tudo é random.
— “Ah, fui ali ao café e encontrei o Manel, bué random.”
Não é random, ele mora ao lado, pá.
E o auge: “dar match”. Antigamente conhecíamos pessoas. Agora fazemos match, como se fôssemos meias numa gaveta digital. E se corre mal? “Ghosting.”
Antes chamava-se falta de educação. Agora parece uma técnica paranormal.
No fundo, isto tudo é uma evolução natural da língua… ou um pedido de ajuda coletivo com filtros bonitos. Porque no meio de tanto “aesthetic”, “vibe” e “mood”, o que todos queremos mesmo é simples:
Comer bem, rir com amigos… e que a internet não vá abaixo.
Porque, sejamos honestos… isso sim, era literalmente o fim do mundo.